Queridos irmãos no sacerdócio, religiosas e religiosos, seminaristas e aspirantes, lideranças, cristãos leigos e leigas e colaboradores, Paz e Bem!

Depois de uma semana em retiro espiritual no Recanto Medianeira, em Veranópolis, peço licença para entrar no coração de cada um de vocês e partilhar, com todo amor de um padre, o que Deus me falou ao coração nestes dias.

Ser amável não é um estilo que o cristão possa escolher ou rejeitar: faz parte das exigências irrenunciáveis do amor, por isso todo ser humano está obrigado a ser afável com aqueles que o rodeiam. Diariamente, “entrar na vida do outro, mesmo quando faz parte da nossa existência, exige delicadeza duma atitude não invasiva, que renova a confiança e o respeito. E quanto mais íntimo e profundo for o amor, tanto mais exigirá o respeito pela liberdade e a capacidade de esperar que o outro abra a porta do seu coração” (Papa Francisco Amoris Laetitia, n. 99).

Neste retiro senti-me muito tocado pelo Amor de Deus. Ele foi-me revelado no encontro com Jesus Cristo, através da Palavra, da Eucaristia, da Confissão, das cartas do Papa Francisco, dos vídeos, na convivência com os irmãos padres, pelo testemunho do pregador e pelas orações incessantes. Entre lágrimas, desde o primeiro dia, sentia o Hino ao Amor, capítulo 13 da Carta de Paulo aos Coríntios, ressoar muito forte em meu coração.

A Igreja possui um tesouro inestimável e uma multiplicidade de dons e carismas. Porém, há um dom maior que podemos experimentar. Diz o Apóstolo Paulo: “aspirai aos dons mais altos. Aliás passo a indicar-vos um caminho que ultrapassa a todos: O AMOR” (1Cor 12,31).

Penso que nos três pontos que seguem todos podemos refletir e nos encontrar:

1.  Não há carisma sem amor

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se eu não tenho amor, sou como um sino ruidoso ou címbalo estridente. Ainda que eu tenha o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda ciência, ainda que eu tenha toda a fé, a ponto de mover montanhas, se eu não tenho amor nada sou. Ainda que eu reparta todos os meus bens aos pobres, ainda que eu entregue meu corpo às chamas, se eu não tenho o amor, nada disso adianta” (1 Cor 13,1-3).

Há uma diversidade de trabalhos, dons e carismas que fazem pulsar diariamente nossa paróquia. Porém, sem amor nenhum carisma se legitima. Não adianta falar a língua dos anjos e nenhuma profecia faz sentido, se não tiver o amor. Nossa paróquia tem várias frentes sociais de ajuda aos pobres. Há dias que nossos corações se despedaçam ao vermos as fileiras de pobres que estão ao lado do nosso santuário para chegar à Casa Pão dos Pobres em busca de algo para comer ou vestir. Nem se perdêssemos todos os bens e até a própria vida tudo isso valeria se não tivermos amor. Temos muitos cursos de formação, curso de teologia e bíblia, retiros, palestras, ministérios, projetos, missas votivas de grandes participações, muitos movimentos e serviços. Porém, diz o Papa Francisco: “é preciso todo esforço para colocar a missão de Jesus no coração da própria paróquia, transformando-a em critério para medir a eficácia das estruturas, os resultados do trabalho, a fecundidade dos padres e das religiosas e religiosos e a alegria que somos capazes de suscitar”.

2.  O que é e o que não é o amor

“O amor é paciente e prestativo, não é invejoso, não se vangloria, não se incha de orgulho. Não falta com o respeito, não é interesseiro, não se irrita, não planeja o mal. Não se alegra com a injustiça, se alegra com a verdade” (1 Cor 13 4-6).

O Apóstolo Paulo não fornece uma definição de “amor”. Nada de especulação teórica, de floreados românticos sobre o amor. Jesus também não respondeu com um conceito abstrato à pergunta do doutor da lei: “Quem é o meu próximo?” (Lc 10,29). Passou a contar logo a parábola do Bom samaritano. Precisamos entender a paróquia exatamente como ela significa, “casa do amparo”, ou seja, uma Igreja samaritana que cuida do próximo, das feridas da alma e do corpo. Amar a Deus está intimamente ligado em amar o próximo. “Quem não ama seu irmão, a quem vê e diz amar a Deus a quem não vê é mentiroso (1 Jo 4,20). “O nosso amor a Deus se mede pelo amor ao próximo” resume Edith Stein.

Esperamos os jovens, porém sem alegria, não se atrai ninguém e, se não for por amor, tudo será em vão. Esse amor que inspira e acompanha todas as obras, é reflexo de Deus!

Diz o Papa Francisco: “fala-se frequentemente dos jovens; alguns referem notícias sobre sua alegada decadência e quanto estejam adormecidos, outros aproveitam-se do seu poder de consumir, e não falta quem lhe proponha o papel de peões do tráfico da droga e da violência”. Essa é uma preocupação gritante! Pois exatamente neste momento em que escrevo esta carta, um jovem de 21 anos foi assassinado brutalmente em frente de sua casa, diante dos olhos de sua mãe e familiares. E agora, neste exato momento em que estou concluindo esta carta outro rapaz de 31 anos é assassinado. Ambos de nossas comunidades, por nós velados e sepultados. Como ficar indiferentes nesta hora? Ou só ficar emitindo julgamentos? Registramos 22 assassinatos neste ano em Bento Gonçalves. Continua o Papa Francisco: “tenho a certeza de que, em cada jovem se esconde uma centelha do amor de Deus; no coração de cada moço e moça, há um pedaço estreito e comprido de terreno que se pode percorrer para os levar rumo a um futuro que só Deus conhece e a Ele pertence”.

Precisamos unir forças para resgatar nossas crianças e jovens no caminho da fé, da esperança e do amor. Cabe a nós apresentar-lhes grandes propostas, para despertar neles a coragem de arriscar a fé e se tornarem disponíveis como a Virgem Maria que, com menos de 17 anos, disse: “eis aqui a serva do Senhor!

Voltando ao Hino ao Amor, Paulo começa logo com dois atributos do amor de Deus: paciência e bondade, intimamente relacionados à misericórdia de Deus. Deus conta com nós pecadores e rejeitados: “pois ainda que a mulher esquecer do próprio filho que amamenta, Eu jamais me esqueceria de ti” (Is 49,15).

Vêm, em seguida, oito enunciados esclarecendo o que o amor não é, jamais pode ser, o que não faz e nunca permite que se faça:

“não é invejoso”: O amor não conhece inveja, ciúme, ambições e rivalidades.

“não se vangloria”: O amor não se preocupa com o que dá mais IBOPE! Não procura publicidade, fama e popularidade.

“não é orgulhoso”: O amor exclui todo tipo de arrogância e ostentação, soberba, tirania e prepotência.

“não falta com o respeito”: O amor jamais atenta contra a moral e a honra, a dignidade de quem quer que seja. São invioláveis a intimidade, a vida privada e a honra das pessoas.

“não é interesseiro”: O amor não é egoísta, não calcula vantagens pessoais, não pergunta: ‘o que eu ganho com isso?’.

“não se irrita”: O amor é sereno, não carrega raivas, dialoga e procura entender, não perde o equilíbrio emocional a ponto de causar mágoas ao próximo.

“não planeja o mal”: O amor não guarda rancor e não leva em conta o mal sofrido. O amor cobre ofensas com o manto do perdão, jamais apela para a vingança ou apela para o revide.

“não se alegra com a injustiça, se alegra com a verdade”: O amor sofre com a injustiça que é fruto do ódio. Mas o amor se regozija com tudo o que é verdadeiro, autêntico, tudo o que promove relacionamento aberto, sincero, transparente entre as pessoas.

3.  “Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará ...” (1 Cor 13,7ss).

As palavras de Santa Teresa D’Ávila dão a este versículo central a devida amplitude:

“Nada te perturbe, nada te espante! Tudo passa! Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem tudo tem, nada lhe falta. Só Deus basta!

O amor jamais passará, porque “Deus é Amor: aquele que permanece no amor, permanece em Deus e Deus permanece nele” (1 Jo 4,16).

Por isso, irmão e irmã na fé sinta-se amado e amada mesmo nas maiores tribulações ou cansaços, perigos, doença ou mesmo a morte. Nada poderá nos separar do amor de Cristo! “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31).

Por fim, “agora permanecem a fé, a esperança e o amor, essas três coisas. A maior delas é o amor” (1Cor 13,13).

Não poderia encerrar esta carta pastoral de amor, sem transmitir a coragem, a delicadeza e o amor de Maria. E, assim, dar a certeza que não somos órfãos, nem de Pai e nem de Mãe que nos aconselha.

Maria, como todos nós, também deve ter sentido temores. Num dado momento encontra-se sozinha. Depois que ela disse: “faça-se em mim segundo a vossa Palavra” até o Anjo desaparece. Sem saber com precisão o que aconteceu, sem poder falar de sua gravidez a ninguém, pois, como explicar estas coisas a alguém? Ela não contou logo a José. É difícil explicar certos acontecimentos extraordinários, pois quem os experimenta sente-se sozinho, com medo e até com tentações. Neste contexto, Maria se coloca a caminho, “dirigindo-se apressadamente a uma cidade de Judá”. Deve ter passado pela sua mente que a única pessoa que a compreenderia seria sua prima. Ao bater na porta de Isabel seu coração palpita, como quando não se sabe de que jeito começar uma conversa complicada e delicada. Para sua surpresa ela ouve: “bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a Mãe do meu Senhor me venha visitar?” Neste momento todos os temores desaparecem e sente-se compreendida, confirma a verdade das promessas do Anjo e por isso explode de alegria o Magnificat como um canto de louvor a Deus. Quando encontramos uma pessoa amiga, devíamos nos questionar: qual o primeiro sentimento que brota, louvor ou a queixa, a lamentação, a fofoca? Urge como cristãos educar-nos para a primazia do louvor.

“Temos motivos de sobra para louvar-te meu Deus, porque és grande, cheio de ternura, bondoso, misericordioso e amas loucamente a mim e a cada pessoa”.

Se começarmos a olhar o mundo com os olhos de Deus, amar as pessoas com o coração de Deus e a louvá-lo por tudo o que ele faz de bom, teremos mais clareza para discernir o bem do mal, a verdade do erro.

Com Maria à nossa frente, será mais fácil caminhar. O Ano Santo Mariano nos faz recordar que a cada passo que trilhamos com Maria é abençoado.

Mas ainda estamos a caminho e Santo Agostinho nos aconselha:

“Amando o próximo e cuidando dele, vais percorrendo teu caminho. E para onde caminhas senão para o Senhor Deus, para aquele que devemos amar de todo nosso coração, de toda nossa alma, de toda nossa mente? É certo que ainda não chegamos até junto do Senhor; mas já temos conosco o próximo. Ajuda, portanto, aquele que tens ao teu lado enquanto caminhas neste mundo e chegarás até junto Daquele com quem desejas permanecer para sempre”. Amém!

De quem deseja ter os mesmos sentimentos de amor de Jesus Bom Pastor, pela intercessão da Virgem de Aparecida e de Santo Antônio,
peço que Deus vos abençoe!

Pe. Ricardo Fontana

Recanto Marista Medianeira, Veranópolis, 21 de setembro de 2017.

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